A melhor forma do ser humano atingir sua plena condição moral, física, social e química é tentar com todas as forças nunca sair do ventre de sua mãe. Uma vez que isso é impossível (para a maioria dos casos) pois não escolhe-se nascer, o mais próximo de realizar essa proeza é tentar se adaptar aos estímulos externos que começam desde o primeiro suspiro de vida buscando sempre viver como o feto, ou antes, com as melhores qualidades desse estado. Não se sabe ao certo o que é ser um feto; essa forma de vida até hoje apenas pode ser compreendida por percepções de um ser humano que já saiu desta, pois não existem casos de fetos que expressaram de alguma forma um reconhecimento de si mesmo, principalmente por não possuírem um sistema completo de raciocínio ou cérebro. É comum encontrar pessoas que negam terem sido fetos em algum dia de suas vidas. Dentre o total de características conhecidas do feto, aplicam-se ao ser humano chamado "adulto" apenas algumas, as quais seriam capazes de proporcionar melhorias significativas em seu estado de ser. A capacidade de não falar seria a mais interessante delas, visto que os rumos da humanidade seriam eternamente gratos por esse aspecto. A natureza do ser humano é sempre interagir com o meio, ainda que seja pelo simples fato de respirar; não digo aqui que a melhor forma de ser humano é não o ser, a grande questão é nem tentar.
Lucas De Magalhães Zecchin
29/12/2011
O que os fetos me dizem todos os dias.
Algumas palavras não muito lúcidas (mas quais são?) sobre uma alternativa eficaz para se viver bem.
15/11/2011
03/11/2011
14/10/2011
Comédia Humana
Por não ser capaz de limitar as possibilidades do que pode ou não acontecer, às vezes quando de manhã acordo e sei que vou ter esse tempo de escrever, de pensar no que vier à cabeça, enfim, de ficar a esmo enquanto milhões de pessoas (provavelmente a maioria) fazem o que não querem, me sinto culpado por esse privilégio, embora pense que ficaria ainda mais se estivesse na mesma situação que eles (se não estou).
O mais embaraçoso de tudo é a facilidade com a qual eu crio a imagem do que seria uma pessoa em tal condições, como se já houvessem padrões absolutos, e o modo como as utilizo como parâmetro para comparar o que não temos em comum para justificar o quão mais merecedoras de alguma coisa elas possam ser.
Pior é quando algo me sugere acreditar, ainda que de forma muito misteriosa, que todos nós somos iguais em algum ponto e que este deveria ser a realidade mais importante, mas logo outra opinião engole esta, uma que se ofende inteiramente por alguém pensar em igualdade quando as condições são tão piores pra uns quanto melhores pra outros.
Então me lembro que "seguir em frente" é o chavão da solução de todos os problemas, mas logo após este pensamento outro me diz que não sei o que é "seguir em frente" como deveria saber. Não sei como explicar mas ainda assim, com toda força contrária, continuo sempre percebendo, em proporções ínfimas, certa frestinha de algo muito maior à tudo, algo que só por existir faz com que todo o resto faça sentido em ser como é.
Talvez as impressões que eu mais tenha desmascarado são as da comédia humana; onde as pessoas reclamam em extremo sobre motivos próprios e alguns dias depois estão rindo felizes por qualquer outra coisa, como se isso não importasse a mínima parte; que todos os estados de espírito estão presos pela mudança que estão fadados a produzir (do prazer à dor, do vazio ao cheio); parece que depois de tudo quanto um ser humano pode gastar energia em fazer, no final estará sempre sozinho; uma parede, o sol e longas manhãs vazias.
O mais embaraçoso de tudo é a facilidade com a qual eu crio a imagem do que seria uma pessoa em tal condições, como se já houvessem padrões absolutos, e o modo como as utilizo como parâmetro para comparar o que não temos em comum para justificar o quão mais merecedoras de alguma coisa elas possam ser.
Pior é quando algo me sugere acreditar, ainda que de forma muito misteriosa, que todos nós somos iguais em algum ponto e que este deveria ser a realidade mais importante, mas logo outra opinião engole esta, uma que se ofende inteiramente por alguém pensar em igualdade quando as condições são tão piores pra uns quanto melhores pra outros.
Então me lembro que "seguir em frente" é o chavão da solução de todos os problemas, mas logo após este pensamento outro me diz que não sei o que é "seguir em frente" como deveria saber. Não sei como explicar mas ainda assim, com toda força contrária, continuo sempre percebendo, em proporções ínfimas, certa frestinha de algo muito maior à tudo, algo que só por existir faz com que todo o resto faça sentido em ser como é.
Talvez as impressões que eu mais tenha desmascarado são as da comédia humana; onde as pessoas reclamam em extremo sobre motivos próprios e alguns dias depois estão rindo felizes por qualquer outra coisa, como se isso não importasse a mínima parte; que todos os estados de espírito estão presos pela mudança que estão fadados a produzir (do prazer à dor, do vazio ao cheio); parece que depois de tudo quanto um ser humano pode gastar energia em fazer, no final estará sempre sozinho; uma parede, o sol e longas manhãs vazias.
11/10/2011
Camila
Era uma noite qualquer de sábado; em junho, talvez. O movimento das pessoas nas ruas denotava alguma diferença que só se podia ser sentida, e muito pouco palpada, enquanto estacionavam seus carros, também as roupas que usavam, as caras que faziam umas para as outras, tudo indicava que aquela noite na zona sul de T**** seria mais uma das quais os moradores da região tanto conheciam quanto se acostumavam.
Nos bares formavam-se alegorias de pessoas nas calçadas em frente, nas mesas, nos balcões, atravessando as ruas, conversas ofuscavam o barulho dos passos e todo aquele movimento causaria a alguém que se pusesse a observar uma estranha sensação de alheamento própria dos mais tímidos e desafortunados, principalmente aqueles que se encontravam ali sem saber por que.
Um grupo particular à essas pessoas havia se formado em tal bar de uma avenida aclamada pelos rumores de metrópole; consistia-se ele de cinco pessoas, das quais, três moças um tanto semelhantes entre si e dois rapazes normais. Formavam um circulo ante uma pequena mesa de madeira visivelmente mal cuidada e pareciam se divertir entre intervalos de goles, risos e cigarros. Uma das meninas dera seu último gole do copo e parecia calcular qualquer coisa com seriedade no semblante e de olhos fixos na mesa começou a dizer - É, eu realmente gostaria de dizer algo à vocês, não sei por que, e devo admitir que não fará sentido algum se vocês não tiverem vivido isso algum dia..
- Como assim Camila, que papo é esse agora? - interrompeu levemente uma das garotas que estava ao seu lado; todos na mesa pareceram tomar o mesmo partido desta e aguardavam com indiferença qualquer resposta.
- Então, é que eu queria falar de tal coisa que reparei esses dias - continuou Camila, com dificuldade em empregar as palavras certas aos pensamentos - Eu estive pensando ... - e nesse momento algum dos rapazes fez qualquer piadinha de mal gosto que acabara por passar despercebida pela própria monotonia - É sobre como nós nunca poderemos ter certeza do que realmente uma pessoa é - prosseguiu Camila - não se pode dizer que uma pessoa é boa só pelo que ela faz de bom, ninguém sabe o que se passa no fundo do coração.
- Todos concordavam com as cabeças e logo entrariam em qualquer outro assunto se Camila não tivesse retomado a conversa para si, arriscando-se conscientemente a se passar por chata e insistente: - E quanto às pessoas que, no passado fizeram as maiores atrocidades e se dizem arrependidas, o que pensar delas? Não se conhecem casos de pessoas das quais possam ter feito as maiores maldades sem ninguém ter conhecimento disso a não ser ela mesma e, hoje, arrependidas, façam um bem ainda melhor do que as pessoas boas fazem? - Dessa vez Camila não pudera esperar respostas monossilábicas ou gestuais, visto que os olhares daqueles que a cercavam pareciam lhe dizer : "Essa aí deve ter feito alguma besteira", rapidamente retomou o rumo da conversa.
- O que eu quero dizer é que todos vocês, como eu, já devem ter conhecido algum caso, alguma pessoa, uma história desse tipo, aliás, acho que todas as pessoas já tiveram esse tipo de experiência, e digo mais - e com uma pequena pausa retomou o fôlego - pra que essa conversa tenha algum resultado interessante cada um aqui deveria compartilhar o que aprendeu com isso, ah sim, só assim acrescentaríamos alguma coisa nas nossas vidinhas lindas, mas eu bem sei que somos um bando de egoístas que por nada desse mundo ouviria mais de um segundo o que outra pessoa tem à dizer a não ser que houvesse qualquer interesse barato por trás de tudo, afinal, o que pra nós importa é outra coisa!- E em menos de um segundo Camila levantou da cadeira, dobrou os joelhos, segurou bem firme na beira da mesa e jogou-a pelos ares com toda a força que tinha.
A mesa caiu num barulho surdo e as garrafas estouravam em cadeia, todas as pessoas que perceberam a cena ficaram atentas ao espetáculo, as pessoas do círculo não sabiam o que fazer e se entreolhavam com espanto, Camila não ouvia nada, deu as costas como se nada tivesse acontecido, deixou algum dinheiro no balcão e entrou no carro que seu pai lhe dera quando entrara na faculdade. Ela chorou na maior parte do caminho.
Nos bares formavam-se alegorias de pessoas nas calçadas em frente, nas mesas, nos balcões, atravessando as ruas, conversas ofuscavam o barulho dos passos e todo aquele movimento causaria a alguém que se pusesse a observar uma estranha sensação de alheamento própria dos mais tímidos e desafortunados, principalmente aqueles que se encontravam ali sem saber por que.
Um grupo particular à essas pessoas havia se formado em tal bar de uma avenida aclamada pelos rumores de metrópole; consistia-se ele de cinco pessoas, das quais, três moças um tanto semelhantes entre si e dois rapazes normais. Formavam um circulo ante uma pequena mesa de madeira visivelmente mal cuidada e pareciam se divertir entre intervalos de goles, risos e cigarros. Uma das meninas dera seu último gole do copo e parecia calcular qualquer coisa com seriedade no semblante e de olhos fixos na mesa começou a dizer - É, eu realmente gostaria de dizer algo à vocês, não sei por que, e devo admitir que não fará sentido algum se vocês não tiverem vivido isso algum dia..
- Como assim Camila, que papo é esse agora? - interrompeu levemente uma das garotas que estava ao seu lado; todos na mesa pareceram tomar o mesmo partido desta e aguardavam com indiferença qualquer resposta.
- Então, é que eu queria falar de tal coisa que reparei esses dias - continuou Camila, com dificuldade em empregar as palavras certas aos pensamentos - Eu estive pensando ... - e nesse momento algum dos rapazes fez qualquer piadinha de mal gosto que acabara por passar despercebida pela própria monotonia - É sobre como nós nunca poderemos ter certeza do que realmente uma pessoa é - prosseguiu Camila - não se pode dizer que uma pessoa é boa só pelo que ela faz de bom, ninguém sabe o que se passa no fundo do coração.
- Todos concordavam com as cabeças e logo entrariam em qualquer outro assunto se Camila não tivesse retomado a conversa para si, arriscando-se conscientemente a se passar por chata e insistente: - E quanto às pessoas que, no passado fizeram as maiores atrocidades e se dizem arrependidas, o que pensar delas? Não se conhecem casos de pessoas das quais possam ter feito as maiores maldades sem ninguém ter conhecimento disso a não ser ela mesma e, hoje, arrependidas, façam um bem ainda melhor do que as pessoas boas fazem? - Dessa vez Camila não pudera esperar respostas monossilábicas ou gestuais, visto que os olhares daqueles que a cercavam pareciam lhe dizer : "Essa aí deve ter feito alguma besteira", rapidamente retomou o rumo da conversa.
- O que eu quero dizer é que todos vocês, como eu, já devem ter conhecido algum caso, alguma pessoa, uma história desse tipo, aliás, acho que todas as pessoas já tiveram esse tipo de experiência, e digo mais - e com uma pequena pausa retomou o fôlego - pra que essa conversa tenha algum resultado interessante cada um aqui deveria compartilhar o que aprendeu com isso, ah sim, só assim acrescentaríamos alguma coisa nas nossas vidinhas lindas, mas eu bem sei que somos um bando de egoístas que por nada desse mundo ouviria mais de um segundo o que outra pessoa tem à dizer a não ser que houvesse qualquer interesse barato por trás de tudo, afinal, o que pra nós importa é outra coisa!- E em menos de um segundo Camila levantou da cadeira, dobrou os joelhos, segurou bem firme na beira da mesa e jogou-a pelos ares com toda a força que tinha.
A mesa caiu num barulho surdo e as garrafas estouravam em cadeia, todas as pessoas que perceberam a cena ficaram atentas ao espetáculo, as pessoas do círculo não sabiam o que fazer e se entreolhavam com espanto, Camila não ouvia nada, deu as costas como se nada tivesse acontecido, deixou algum dinheiro no balcão e entrou no carro que seu pai lhe dera quando entrara na faculdade. Ela chorou na maior parte do caminho.
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